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Homens considerados abusivos dizem não entender motivo de frequentar centro de reabilitação


Reportagem publicada originalmente no Jornal da Metropole em 21 de julho de 2022

“Tem que estar aqui e dar graças a Deus por não estar atrás das grades”. É assim que um dos participantes do Grupo Reflexivo de Homens Autores de Violência define a sua atual condição. Apesar disso, ele, assim como os outros nove presentes na sala, se dizem inocentes de terem cometido qualquer tipo de ato abusivo.


O Jornal da Metropole esteve presente no Núcleo de Enfrentamento e Prevenção ao Feminicídio. O grupo se reúne toda quarta-feira, no bairro do Comércio.


Todos estão ali após a Justiça conceder medida protetiva de urgência a uma companheira ou ex-companheira, que se sentiu ameaçada por uma conduta violenta. Eles precisam cumprir encontros semanais por 3 meses. Depois, são acompanhados por um ano com encontros mensais.


Apesar da frequência que precisa ser cumprida, ao perguntar o que tinha acontecido para estarem lá, a resposta foi sempre vaga: “não sei a razão de estar aqui”.


A explicação pode ser uma dificuldade em reconhecer o erro, vergonha ou, realmente, uma falha no sistema que os levou até aquela sala. O fato é que, apesar da resistência, a maioria reconhece a importância do grupo e participa ativamente das discussões propostas sobre machismo, violência de gênero, masculinidade e tantos outros temas que antecedem o pico da violência contra a mulher, que é o feminicídio.


“Esse curso aqui com certeza é excelente, mas ajuda muito mais aqueles que, de fato, cometeram alguma coisa”, se queixa um policial militar, de 41 anos, que afirma nunca ter ameaçado ou agredido a ex-esposa, apesar de confirmar que havia uma relação conturbada entre os dois.


A primeira medida protetiva contra ele foi dada em 2018. Com a renovação feita este ano, o policial foi encaminhado para o grupo. Até então, o homem diz que a Justiça nunca chegou a procurá-lo para ouvir sua versão.


Essa é uma queixa geral, afirma Maria Auxiliadora Alves, 61, coordenadora do projeto. “O objetivo do grupo é criar um espaço de fala para esses homens”, diz. Ao receber a reportagem, antes mesmo de nos levar aos participantes do grupo, Maria Auxiliadora já faz o alerta de que todos diriam ser inocentes.


Sendo mesmo ou não, pode-se dizer que a intenção do projeto é cortar o mal pela raiz. “Existe uma crítica, né? Por que trabalhar com esses homens, já que eles são os autores da violência? Porque quem mata a mulher é o homem”, explica a coordenadora.


Projeto pioneiro

O Grupo Reflexivo de Homens Autores de Violência faz parte do Núcleo de Enfrentamento e Prevenção ao Feminicídio (NEF), promovido pela Prefeitura de Salvador, e existe desde novembro de 2021. A iniciativa está chegando ao seu sétimo grupo, composto por 10 homens, que foram encaminhados por uma vara de Justiça após serem acusados de cometer algum tipo de violência contra a mulher. No projeto não são aceitos homens que tenham tentado ou cometido um feminicídio.


O projeto foi criado por Maria Auxiliadora com o intuito de “quebrar esse paradigma de que só a mulher precisa ser trabalhada. Nós precisamos também trabalhar com eles”, diz.


Ela, que já foi vítima desse tipo de violência, acredita que a discussão sobre o assunto deve atingir todas as estruturas da sociedade. “É preciso também trabalhar com o núcleo familiar, com as crianças. Boa parte desses homens [agressores] relata que conviveu com a violência doméstica quando criança”, reflete.


Desde abril de 2020, uma mudança na Lei Maria da Penha tornou obrigatório que agressores frequentem programas e grupos de reeducação.


Informações / Jornal Metrópoles

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