Brasil sofre com troca de gerações no UFC


A última década começou com a consagração do MMA no Brasil. O sucesso de atletas como Anderson Silva, José Aldo, Vitor Belfort e Junior Cigano tornou o esporte forte na mídia e popular para o público geral. Com o passar do tempo, entretanto, essa geração entrou em declínio natural, e uma nova leva de ídolos deste porte ainda não surgiu.

Nos últimos anos, tivemos indícios do que pode ser o amadurecimento de uma nova geração vencedora: Deiveson Figueiredo, Gilbert Durinho, Charles do Bronx, Paulo Borrachinha e Thiago Marreta são apenas alguns dos que representam esse desejo de um Brasil novamente multicampeão no UFC. Quem só cresceu é o MMA feminino, que se consolidou e tem como destaque a dominância de Amanda Nunes em duas divisões, mas não possui uma geração anterior a qual possa ser comparada no Ultimate, que só aderiu ao gênero a partir de 2012.


Por que a entressafra de gerações foi um momento tão difícil para o MMA brasileiro, antes acostumado a acumular cinturões? Inicialmente, a resposta passa pelo fato de que o esporte está mais globalizado do que no início da década passada, quando reinavam absolutos lutadores de Brasil, EUA e Canadá. A massificação das artes marciais mistas pelo mundo trouxe os primeiros títulos africanos do UFC com Kamaru Usman e Israel Adesanya, a celebridade europeia Conor McGregor e o império russo de Khabib Nurmagomedov, entre campeões e campeãs de diversas nacionalidades.


Segundo Daniel Cerrado, treinador de atletas como Gilbert Durinho, Vicente Luque e Viviane Araújo, além de os lutadores estrangeiros terem subido de patamar, a própria evolução do UFC, com a adoção do sistema de ranqueamento em 2013, é um fator que aumenta a dificuldade em ganhar destaque e se manter entre os melhores.

— Tenho plena convicção de que os atletas atuais podem alcançar o nível dos mais antigos, só que hoje a concorrência está um pouco diferente, está muito mais nivelada. Quando chega no top 10, não é aquela certeza de que o cara vai sempre ganhar. Antigamente, não tinha uma lógica de quem enfrentaria quem, não tinha ranking, era mais pelo nome e isso trazia muita visibilidade também. Hoje é mais difícil. Falar em hegemonia, o cara ficar vitorioso tanto tempo como antigamente, isso acho difícil.


A dificuldade de uma nova geração em se fazer presente nas disputas masculinas de cinturão do UFC pode ser observada na tabela abaixo, que contabiliza todos os brasileiros que lutaram por título, interino ou regular, na última década. Além de o país ficar três anos inteiros sem vencer uma disputa, entre 2017 e 2019, é possível identificar que os atletas que disputaram títulos foram quase sempre os mesmos do início da década e de uma geração mais antiga – situação que mudou apenas nos últimos dois anos.


Pedro Rizzo, lutador que começou a carreira nos anos 90 e pendurou as luvas em 2015, indica uma mudança importante nos treinamentos e na origem dos atletas de MMA brasileiros. Se antes o lutador tinha sempre uma arte marcial como carro-chefe e complementava sua formação com as demais modalidades, a última década trouxe uma proliferação de “generalistas”. Esse novo modelo de atleta priorizou uma formação equilibrada entre trocação, wrestling e luta de chão, mas teria negligenciado a necessidade de intensificar os pontos fortes naturais de cada competidor.

— É uma geração que veio muito misturada, não tem uma “arte marcial raiz” muito forte. O Anderson é um cara que tem um striking de alto nível, o Aldo também levava a luta em pé. Nessa geração mais nova, vieram caras que não são nota 10 em nada, mas 8 em tudo — afirma Rizzo, que hoje é treinador de atletas como Raoni Barcelos — Essa geração que veio muito mixada não tem nada a recorrer quando o bicho pega. Faltou uma luta raiz para quando o jogo está dificílimo.


Rizzo comenta que a nova guinada do MMA brasileiro dentro do UFC acontece num momento em que nomes como Durinho, Deiveson e Charles do Bronx potencializam habilidades em que são superiores aos adversários. Treinador de Durinho, Daniel Cerrado reforça a ideia de Pedro Rizzo e comenta a evolução do peso-meio-médio, que disputa o cinturão do Ultimate em fevereiro.


Pedro Rizzo também critica certo imediatismo em fazer sucesso por parte dos lutadores e a forma como o próprio UFC pode alimentar esse sentimento. Ele cita que o "The Ultimate Fighter", programa televisivo criado pela companhia com o intuito de revelar novos talentos, banalizou as contratações. Em vez de ingressarem apenas campeões ou vices, muitos atletas do TUF foram puxados para dentro da companhia, enquanto outros lutadores que cresciam em eventos menores eram renegados. Rizzo alega que a maioria dos contratados via TUF “bateu e voltou”.

O Charles do Bronx tem muita chance de ser campeão, torço muito para ele. Sempre que ele vai lutar as pessoas não dão muita bola, mas eu falo: “tem que tomar cuidado porque esse moleque é sinistro”. O chão dele é fogo e aprendeu a jogar em pé. Aquela “irresponsabilidade” de ir para dentro é necessária, campeões têm que arriscar, senão é mais um. O Raoni Barcelos (treinado por Rizzo) ainda vai lutar com o Assunção, mas se vencer sobe no ranking e daqui a um ano e meio pode estar disputando o cinturão. Tem o Glover. Durinho tem todas as chances, onde acaba a luta do Kamaru começa a do Durinho, que é no chão. Então a gente pode ter, ainda neste ano,


Deiveson, Amanda, Charles e Durinho, se o UFC deixar. Para 2022, pode adicionar Raoni e Borrachinha, se ele se redimir. A gente vai fazer muitos campeões — afirma Pedro Rizzo.


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 Por Josi Machado e Allan Lago