O drama do Circo Jamaica: há três meses sem espetáculos, trupe pede ajuda

25.06.2020

  No início de março, a trupe formada por 18 pessoas chegava a Algodão, único distrito da cidade de Ibirataia, na região Sul da Bahia. O local, às margens da BA-120, tem um comércio movimentado e uma população superior a outros distritos baianos. São 6 mil pessoas, sendo que cerca de 2 mil delas residem na área compreendida como urbana. 

 

  O Circo Jamaica levantou lona ali. Àquela altura, os artistas não tinham apenas o coronavírus como a única preocupação. Além do isolamento social, as fortes chuvas poderiam enfraquecer a bilheteria da companhia que vive exclusivamente das apresentações. Nos dias 7 e 8 de março, o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) emitiu um comunicado para 267 municípios baianos alertando para fortes chuvas com ventos que chegariam a 100 km/h. Ibirataia estava na lista.

 

  Foram cinco dias de espetáculos durante o mau tempo até as atividades serem encerradas. Com o vírus se espalhando, e as prefeituras fechando o cerco contra a doença, era impossível continuar os shows.

 

Campanha

 

  Despediu-se a plateia, entrou em cena o desespero. Sem a venda dos ingressos, a proprietária do circo Norma Sueli Cardim, de 60 anos, que está na companhia desde 1992, resolveu promover uma campanha para conseguir combustível. Precisava da ajuda dos moradores de Algodão para retornar ao local tido como endereço fixo do circo, o povoado de Guarani, na cidade de Prado, região do Extremo-Sul.

 

  Junto com os filhos e caminhoneiros locais chegou ao resultado: é preciso cerca de 1 mil litros para abastecer três ônibus, três carretas e dois carros de passeio que vão ser usados para o transporte dos artistas e de toda a estrutura. “É um circo com …. Não tenho base de quantas toneladas porque são cadeiras, torres, lona, palco e as ferragens. Fica até difícil de calcular”, diz Norma. 

 

  Mas a campanha do combustível teve pouca adesão. Foi aí que a proprietária teve a ideia de pedir ajuda à imprensa local. Logo chegaram doações em dinheiro e alimentos. Um alívio para os artistas.

 

Incerteza

 

Já não bastava a interrupção dos espetáculos, o vírus e a incerteza do retorno para casa, a proprietária teve que enfrentar a perda de um neto em um acidente de trânsito, na cidade de Eunápolis. Parte do dinheiro que havia recebido foi destinado para compra de passagens até Prado, onde aconteceu o sepultamento. O restante do circo, no entanto, continuou em Algodão.

 

  Mesmo que retorne à cidade de origem, o Jamaica dará uma pausa este ano. Será impossível continuar com o espetáculo que costuma durar cerca de duas horas e contar com a participação de três palhaços, além de números como tecido, mágica e malabares — esses últimos dois realizados pelo neto de Norma, morto no acidente.

 

"A sensação que tenho é que nosso circo acabou. Agora, só existem os personagens.

 

  Estou voltando para Prado e procurando outro meio de vida. Se tudo der certo, voltamos em 2021. Isso se a gente ainda tiver forças e material. Os artistas se preocupam com o que vão fazer lá fora. Vai ser um aprendizado. Vamos ter que aprender a fazer alguma coisa, vender algo na rua, ser ajudante em alguma borracharia... Viver do circo só Jesus sabe quando", lamenta Norma. 

 

Informações/BNews

 

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