Futura ministra de Bolsonaro detalha abusos sexuais sofridos na infância

18.12.2018

Futura ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, a advogada e pastora sergipana Damares Alves decidiu falar pela primeira vez sobre a série de estupros que sofreu quando era criança. Ela revelou que foi violentada por dois pastores da igreja que frequentava com sua família. O primeiro deles foi enviado de outra igreja e ficou hospedado na casa dela.

 

 

O relato foi feito em entrevista ao portal Universa e traz detalhes da violência da qual a advogada foi vítima.

 

"Chamo ele [o primeiro abusador] de 'falso pastor' porque era um pedófilo fingindo ser pastor. Ele foi às vias de fato comigo. Eu falo abuso, mas foi estupro. Foram várias vezes em um período de dois anos. Começou quando eu tinha seis anos e a última vez que o vi estava com oito. Uma das cenas que lembro bem é: eu estava dormindo no meu quarto, que era ao lado do de meus pais.

 

Estava sonhando que segurava uma coisa quente e, quando, abri os olhos, estava segurando o pênis desse homem. Senti pavor, medo e dor. Da primeira vez que me estuprou, ele me colocou no colo, olhou na minha cara e disse: 'Você é culpada, você me seduziu, você é enxerida'. Ele dizia que se eu contasse para o meu pai, ele o mataria", detalhou.

 

O segundo abusador, segundo Damares, não chegou às vias de fato, mas o medo a fazia pensar que teria se tornado "uma presa fácil" porque o primeiro poderia ter contado para ele. "Me recordo de quatro momentos. Passava a mão no meu corpo, me beijava na boca, me colocava no colo. Uma vez ejaculou no meu rosto", pontuou. 

 

À publicação, ela disse que quando já era adulta, aos 24 anos, soube que seus pais descobriram os abusos, mas, na época, não tomaram nenhuma atitude. Ela tinha medo de contar pra alguém por levar a sério a ameaça do primeiro estuprador, de que ele mataria seu pai caso os abusos viessem à tona. Apesar disso, a advogada lembra que emitia "muitos sinais", mas ninguém notou.

 

"Fiquei refém daquele predador. Acontece com a maioria das meninas abusadas: algumas não falam porque são ameaçadas, outras, porque têm medo da reação do pai e da mãe e há as que acham que ninguém vai acreditar".

 

Ao falar nos sinais, Damares lembra que passou a ser uma criança triste, retraída, que tinha pesadelos e gritava à noite. Por isso, ela frisa que a família, a Igreja e a escola falharam enquanto ambientes de proteção. Quando seus pais descobriram, eles foram conversar com religiosos e foram orientados a não falar sobre o assunto com ela, mas sim orar.

 

"Naquela época não se falava de sexo com filhos, minha mãe nunca falou de menstruação. Trocaria anos de oração por um abraço ou uma conversa quando ela descobriu. Os pais precisam fazer isso: ler os sinais, prestar atenção nos filhos, perguntar se a criança quer contar alguma coisa, perguntar se alguém fez um carinho esquisito. Se alguém tivesse me dito para gritar, eu teria gritado".

 

Abalada com os abusos, a futura ministra tentou se matar aos 10 anos. Para isso, ela conta que subiu em um pé de goiaba com veneno de rato dentro de um saquinho plástico. Foi a imagem de Jesus que a fez desistir do suicídio. "Era tanta dor e sofrimento que resolvi interromper minha vida. (...) Quando subi com o veneno, vi meu amigo imaginário, o personagem que é Jesus, de barba, roupa branca.

 

O saquinho caiu da minha mão e desisti. Estão me ridicularizando por ter falado isso, mas se vocês não acreditam, problema é de vocês. Tem criança que vê duende, que fala com fadas. Eu vi Jesus. Percebo que há uma discriminação religiosa sórdida que está banalizando o sofrimento de uma criança", acusou.

 

De fato, o vídeo em que a futura ministra clama para que Jesus desça do pé de goiaba viralizou e ela foi alvo de chacota nas redes sociais a - no entanto, a edição do vídeo que mais repercutiu corta o momento em que Damares explica que sua visão de fé impediu que ela cometesse o suicídio.

 

Diante de tudo isso, a advogada defende que as escolas mantenham educação sexual como parte de seu conteúdo programático e diz que vai conversar com o Ministério da Educação sobre o assunto. "A escola vai ter que ter um papel importante para combater abusos contra crianças.

 

A primeira ideia é capacitar professores para identificar violências contra os alunos. Mas é preciso respeitar as especificidades de cada idade. E a família deve ser ouvida e consultada. Se a família não quiser que o filho aprenda sobre o assunto, vai ser responsabilizada por isso", afirmou.

 

Sua opinião, no entanto, contrasta com a do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL). No mês passado, ele chegou a dizer em transmissão ao vivo nas redes sociais que "quem ensina sexo é papai e mamãe". O caso de Damares é um exemplo dos casos em que apenas os pais não puderam formar essa rede de proteção às crianças para que possam reconhecer e relatar casos de abuso.

 

Informações /  Bahia Notícias

 

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