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  • Jornal Cidade

A violência psicológica e seus possíveis danos à vida da criança



A primeira infância, período que compreende desde o nascimento até os seis anos de vida de uma criança, constitui-se em um momento de suma importância para o desenvolvimento infantil, visto ser quando as crianças desenvolvem a fala, a atenção, as habilidades motoras, detectam mais facilmente os sons, reconhecem pessoas e é quando as bases, para o que virá a ser a personalidade da criança, começam a ser engendradas.

A criança começa então a acumular experiências, sejam elas positivas ou negativas, provenientes da relação com os pais, ou com aqueles que cumprem as funções materna e paterna, e, também, com demais pessoas com as quais venha a se relacionar. Por isso, de acordo com Shonkoff (2009), os primeiros anos de vida de uma criança precisam receber especial atenção, pois são considerados como os mais importantes de todo o seu desenvolvimento, visto que, aquilo que vier a acontecer na primeira infância poderá influir em toda a vida.

Discutiremos então as consequências que advém sobre a vida da criança, que posteriormente se tornará adulto, quando as primeiras experiências são mais negativas que positivas. E aqui demarcamos o fato de que nossa escrita se detém a falar sobre os possíveis danos causados a crianças que sofreram violência psicológica, seja ela por parte de familiares, cuidadores ou educadores.

Bem, quando falamos sobre o desenvolvimento da criança, não podemos desconsiderar que enquanto se desenvolve física, emocional e psicologicamente, a criança corre, brinca, pula, grita, imita e aí então é que a paciência, peça fundamental na criação e educação de crianças, começa a ser testada. E em alguns desses momentos, pode ocorrer uma perca repentina dessa paciência, que cede lugar para que certa agressividade e até hostilidade para com as atitudes da criança possam aparecer.

E, justamente, por não deixar marcas físicas, a agressividade que advém verbalmente pode, muitas vezes, passar despercebida, e até mesmo não ser considerada tão prejudicial. No entanto, seus danos para o desenvolvimento da criança podem ser tão, ou até mais, nocivos do que os provenientes da violência física, visto que, as primeiras pessoas que deveriam incentivar, cuidar, acreditar e amar a criança, não o fazem, tornando frágil o vínculo das primeiras relações dela. E considerando que a criança ainda é um ser em plena transformação, torna-se difícil mensurar de que forma os danos da violência psicológica refletirão na vida dela, mas, ainda assim, algumas inferências podem ser feitas.

Por exemplo, palavras negativas dirigidas à criança, influirão diretamente na formação da sua personalidade e autoestima. Pode ocorrer de que devido à faixa etária em que a criança esteja ela não consiga compreender o significado das palavras que estão sendo a ela dirigidas, porém se existe algo que ela certamente entenderá é a forma como essas mesmas palavras estão sendo ditas, muitas vezes seguidas por gritos e até da própria violência física também. Ou seja, no momento em que sofre a violência psicológica, a maturidade emocional da criança pode não permitir que ela tenha uma compreensão daquela situação, todavia nada impede de que haja o registro desses momentos no imaginário da criança, e que em outros momentos da vida dela esses registros possam vir à tona.

Então, frente a situações em que sofrem abuso emocional, as crianças podem entender que se relacionar com o outro gritando e dirigindo palavras negativas, é algo normal, e assim estender este comportamento para as suas relações, levando-o, muitas vezes, até a fase adulta. Ainda na infância, crianças das diferentes faixas etárias podem vir a apresentar, também, comportamentos que se relacionam com dificuldades para aprender, desenvolver e manter relações interpessoais, comportamento agressivos, ou passivos demais, frente a circunstâncias consideradas normais, tudo isso somado a humor triste ou depressivo e posterior tendência a desenvolver patologias psicossomáticas.

Até este ponto pode ainda restar alguma dúvida sobre o que de fato é essa tal de violência psicológica, então vamos te explicar. A violência psicológica, que se configura como uma forma de abuso emocional ocorre quando alguém, geralmente um adulto, expõe a criança a situações nas quais ela vem a ser humilhada, diminuída, criticada excessivamente, e são ditas para a criança frases tais como “você não faz nada direito”, “não serve para nada”, “o filho da fulana já faz isso e você não”.

A criança passa a ter suas atitudes controladas e observadas apenas para ser taxada de incapaz, fazê-la passar vergonha e muitas vezes se sentir culpada por problemas que, na maioria dos casos, não dependem apenas dela. Somado a todos estes tipos de abuso emocional supracitados, têm-se ainda crianças que são abandonadas emocionalmente as quais, dificilmente, saberão dar e receber afeto, podendo tornar-se adultos que se fecham para relacionamentos e/ou que tem medo em demonstrar seus sentimentos e expressar emoções positivas, afinal o não recebimento de amor, carinho e atenção também podem acarretar consequências devastadoras.

E aqui reafirmamos a máxima que vem sendo discutida, de que a violência psicológica acarretará danos profundos à personalidade da criança, com isso influindo negativamente em sua forma de se relacionar consigo mesma e com o outro. Para corroborar a nossa discussão apresentamos dados provenientes de uma pesquisa realizada sobre o tema da violência psicológica e suas consequências na vida de crianças. Segundo um relatório publicado pela Associação Americana de Psicologia (APA), após analisar as histórias de mais de cinco mil crianças, foi constatado que a violência psicológica causa nas crianças as mesmas consequências, em termos de saúde mental, que as violências físicas ou sexuais.

Ainda de acordo com este relatório, patologias como depressão, ansiedade, baixa autoestima, sintomas de estresse pós-traumático, ideação suicida e até uso de substâncias químicas na adolescência e fase adulta, demonstraram ser mais propensos em casos de violência psicológica. Apesar disso, a violência psicológica e suas marcas são, comumente, tratadas como menos importantes.

Chegamos então à conclusão de que pensar a violência psicológica como menos importante que os outros tipos de violência apenas colabora para que ela, silenciosamente, possa se propagar e com isso ser danosa à vida das crianças, que caso não encontrem auxílio para identificar o abuso emocional e orientá-las a fim de que consigam, de alguma maneira, elaborar as experiências negativas, podem vir a tornar-se adultos com traumas e feridas internas, que mesmo não estando expostas, machucam e fazem sofrer; Sofrimento este que pode ser refletido não só na sua forma de se relacionar, mas também em seu corpo, escondido sob a forma de dores inexplicáveis, alergias que não passam e etc.

Frisamos assim a importância do acolhimento e respeito às crianças, e também aos adultos que já sofreram algum tipo de violência psicológica, estes últimos, na maioria dos casos, precisam de atenção e de pessoas com sensibilidade para lhes ajudar na, muitas vezes, difícil tarefa de voltar a se amar, se aceitar da maneira como são, recuperar sua autoestima, conseguir expressar suas emoções e sentimentos e acreditar que sim, possuem um valor.

Para todos aqueles que convivem e/ou trabalham com crianças, fica o nosso alerta para que se atentem a forma como se dirigem aos pequenos, como os corrige e educa. Pois por mais estressante que seja o seu dia, ou mesmo sua vida, prestar atenção a suas atitudes e palavras para com a criança é fundamental. Desde muito cedo as crianças começam a observar e imitar palavras e comportamentos, por isso, escolha semear na vida da criança experiências positivas, para que, num futuro não tão distante, os frutos a serem colhidos sejam melhores ainda.

Por fim, esteja atento, pois crianças que sofrem violência psicológica carregam impresso em seu comportamento textos que descrevem as consequências nocivas dessa situação, basta que um observador atento saiba ler.

Anielle C. Pizzani Soares

Psicóloga de Orientação Psicanalítica - CRP-03 / IP17075


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